BRASIL: "CONSUMO DE CÁLCIO ENTRE ADOLESCENTES PÓS PÚBERES,
EUTRÓFICOS E OBESOS"

Luana Caroline dos Santos 1 , Isa de Pádua Cintra 2 , Mauro Fisberg 2 , Lígia A. Martini 1
1 Departamento de Nutrição, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo
2 Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente, UNIFESP.

1. INTRODUÇÃO

 A ingestão adequada de cálcio na adolescência é de suma importância tendo em vista que o acúmulo de massa óssea ocorre desde o início da puberdade até a segunda década de vida. Essa fase é crucial para a prevenção de problemas ósseos futuros como osteoporose (EISENSTEIN 2000). Além da importância do cálcio na manutenção da integridade do esqueleto, estudos recentes têm investigado um papel adicional deste mineral na prevenção de doenças crônicas como hipertensão e obesidade (ZEMEL e col. 2000, PARIKH e YANOVSKI 2003). Deste modo, o presente estudo teve como objetivo avaliar a ingestão de cálcio entre adolescentes eutróficos e obesos.

2. METODOLOGIA

Estudo observacional, caso-controle, em que foram avaliados adolescentes selecionados por meio de anúncios publicitários em mídia impressa (jornais de grande circulação e revistas) e convite em uma escola pública. O atendimento aconteceu no Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da Universidade Federal de São Paulo.

Os adolescentes foram divididos em dois grupos, obesos e controle, conforme os seguintes critérios de seleção:
Grupo Controle : foram incluídos os adolescentes com IMC entre o Percentil 5 e o Percentil 85, conforme proposto pela Organização Mundial da Saúde (WHO 1995) a partir da curva de referência do National Center for Health Statistics- NCHS (CDC 2000).
Grupo Obesos: foram incluídos aqueles com IMC superior ao Percentil 95 das curvas do CDC/NCHS, 2000 (Anexo I).

Os adolescentes de ambos os grupos passaram por uma avaliação médica inicial, realizada por pediatras treinados do CAAA, para definição dos estágios de maturação sexual,sendo incluídos somente os que estivessem em fases iguais ou superiores ao estágio 4 de Tanner (TANNER 1962).
Os critérios de exclusão adotados foram: prática de atividade física intensa (critérios das DRIs-2000), presença de patologias crônicas referidas (como diabetes mellitus , hipertensão arterial e insuficiência renal crônica), ou uso de medicamentos que pudessem comprometer o desenvolvimento e análise do estudo (tais como hipoglicemiantes, anticonvulsivantes, etc.).
Os adolescentes foram avaliados após explicação do projeto e assinatura do termo de consentimento pelo responsável conforme preconiza a resolução nº 196 do Conselho Nacional de Saúde, de 10 de Outubro de 1996. O estudo abrangeu avaliação do consumo alimentar, avaliação antropométrica e da composição corporal, avaliação bioquímica (dados não demonstrados).

_ Avaliação do consumo alimentar

A avaliação alimentar foi realizada por meio do registro alimentar de 3 dias. Este foi solicitado antes da primeira consulta, no momento da triagem para participação no estudo.

Foram fornecidos explicações e detalhes do preenchimento do registro nesta oportunidade, incluindo a necessidade do preenchimento do mesmo em dias alternados e com um dia de fim de semana (WILLET 1998). Os próprios adolescentes anotaram os alimentos e componentes das preparações consumidas, em medidas caseiras e com a marca do produto, quando possível.
A padronização de receitas e de medidas caseiras declaradas no registro alimentar foi realizada por meio de tabelas de composição de alimentos (PHILIPPI 2001, PINHEIRO e col. 2004) e o acréscimo de óleo adicionado às preparações foi efetuada com o auxílio da tabela de incorporação de óleo vegetal no processo de cocção (DOMENE, data desconhecida).
Os dados obtidos foram analisados com o auxílio do software Nutwin versão 1.5 (UNIFESP 2002) e comparados às Dietary Reference Intakes (DRIs, IOM 1997) para este estágio de vida.

_ Análise estadística

A análise estatística foi realizada com o auxílio do programa SPSS 12.0. Foram aplicados os testes de Kolmogorov-Smirnov, t-Student, e Qui-Quadrado. Realizou-se o ajuste da ingestão de cálcio pela energia da dieta, por meio do método do nutriente residual proposto por Willet e Stampfer (1998).
Este projeto foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo (instituição onde os dados foram coletados) sob os protocolos nº 1151 e CEP 0972/04, respectivamente.

3. RESULTADOS

A amostra deste estudo foi composta por 96 adolescentes, sendo 49 do grupo de obesos (GO) e 47 do grupo eutróficos (GE). A distribuição dos gêneros foi similar entre os grupos devido ao pareamento dos mesmos: 24,5% de meninos e 75,5% de meninas entre os obesos e 23,4% de meninos e 76,6% de meninas entre os eutróficos.
A média de idade foi 16,6 (1,3) anos e não houve diferença significativa entre os grupos: 16,6 (1,4) anos no GO e 16,6 (1,3) anos no GE (p=0,913).
A média de ingestão de energia proveniente da dieta, macronutrientes e colesterol não foi estatisticamente diferente entre os grupos. A ingestão de cálcio ajustado pela ingesta calórica da dieta foi estatisticamente superior entre os eutróficos: 692,1 (199,5)mg/dia, e 585 (249,9)mg/dia entre os adolescentes obesos (p<0,05). Observou-se diferença significativa da média de ingestão de cálcio entre os sexos no grupo de adolescentes obesos: 720,4 (269,1) mg/dia entre os meninos e 541,4 (230,5) mg/dia entre as meninas.

Verificou-se que apenas 4 adolescentes (4,17%) da amostra total apresentaram ingestão superior a AI para a faixa etária até 18 anos que é de 1300mg/dia. Dentre os adolescentes com idade superior a 18 anos (n=15) nenhum alcançou a AI de 1000 mg/dia. Tal resultado sugere ingestão insuficiente do mineral por mais de 95% da população podendo-se traduzir em riscos futuros para este grupo.

O consumo de leite e derivados verificado no registro alimentar de três dias foi pequeno em ambos os grupos. A ingestão mediana de leite foi 133,3 ml entre os adolescentes eutróficos e 83,3 ml entre os obesos. Não houve diferença estatisticamente significante desta ingestão (p=0,45). Observou-se que mais de 60% dos adolescentes consumiam menos de 1 porção de leite por dia (figura 1).

Figura 1 - Consumo diário de leite (em porções) entre os adolescentes segundo o grupo de estudo.

GE: grupo de eutróficos (n=47) GO: grupo de obesos (n=49)

O consumo dos derivados lácteos (iogurte, queijo e requeijão) também foi estatisticamente similar entre os grupos. Destaca-se porém o baixo consumo diário destes: mais de 78% dos adolescentes do GE e 87,7% do GO não consumiram iogurte nos dias avaliados pelo registro alimentar. O consumo adequado de leite e derivados (cerca de 3 porções/dia) foi verificado em menos de 5% dos adolescentes, e este seria fundamental para que a ingestão de cálcio atingisse os valores preconizados pelas DRIs. 

4. DISCUSSÃO

Os adolescentes avaliados apresentaram ingestão de cálcio aquém das recomendações, porém similar ao relatado em vários estudos com adolescentes no Brasil e em diferentes países.

No Brasil, Lerner e col. (2000) avaliaram 323 alunos de 5ª e 8ª série de 8 escolas da cidade de Osasco, São Paulo, e verificaram média de ingestão de cálcio de 628,85 (353,82) mg/dia entre os meninos e 565,68 (295,43) mg/dia entre as meninas. Os adolescentes do estudo também foram divididos em quartis de ingestão de cálcio e verificou-se que nem a média de cálcio ingerido no quartil mais alto (1015mg/dia) atingiu a ingestão adecuada preconizada pelas DRIs para este estágio de vida. Garcia e col. (2003) e Slater e col. (2003) verificaram resultados similares com adolescentes da cidade de São Paulo.
Nos países desenvolvidos, as ingestões de cálcio entre adolescentes variam de 536 a 789 entre as meninas e de 663 a 1061 entre os meninos, demonstrando que a baixa ingesta deste mineral é independente do local de estudo e do nível socioeconômico (FAILDE e col. 1997, HAREL e col. 1998, SALAMOUN e col. 2005).

Neste trabalho, observou-se baixo consumo de leite e derivados entre os participantes, sendo que menos de 5% da amostra alcançou as 3 porções diárias recomendadas (PHILIPPI e col. 1999). A mediana de consumo de leite observada (133,3ml no GE e 83,3ml no GO) foi similar ao encontrado pela Pesquisa de Orçamento Familiar 2002/2003, que encontrou um consumo médio de 65,7ml leite/dia entre as famílias com rendimentos mais baixos e 161,6 ml leite/dia entre famílias com rendimento superior a 10 salários mínimos. Tais resultados comprovam o baixo consumo de leite e, consequentemente, baixa ingestão de cálcio na população brasileira, mesmo nas famílias de maior nível socioeconômico (IBGE 2004). Estes fatos demonstram que a insuficiente ingestão de leite e derivados seja principalmente decorrente do hábito alimentar da nossa população.
Na adolescência, a baixa ingestão de cálcio pode ser explicada pela prática alimentar comum deste estágio de vida em que se destaca o hábito de não realizar o desjejum (usualmente é nesta refeição que se concentra o maior consumo de alimentos fontes desse mineral); o elevado consumo de refrigerantes e snacks, que poderiam implicar na substituição do consumo de produtos lácteos; a substituição do jantar por lanches e a busca pela independência e liberdade na escolha da alimentação, considerando que muitos associam o consumo de leite como uma prática intrinsecamente associada à alimentação infantil ( CRUZ 2000).
Essa ingestão de cálcio insuficiente pode comprometer a saúde óssea futura dos adolescentes tendo em vista a importância desta fase para o incremento da massa óssea e prevenção de osteoporose na vida futura (LANOU e col. 2005). Além disso, os recentes achados da associação da ingestão de cálcio com a prevenção de doenças crônicas como a hipertensão e obesidade, ressaltam a importância da ingestão adequada deste mineral (ZEMEL e col. 2000, ZEMEL e col. 2004). No presente estudo, a menor ingestão de cálcio verificada entre os adolescentes obesos reforça a hipótese da relação deste nutriente com a obesidade.

5. CONCLUSÃO

Os adolescentes avaliados apresentaram ingestão de cálcio aquém das recomendações, que pode se traduzir em riscos futuros para este estágio de vida considerando a importancia deste mineral na manutenção da integridade óssea. Além disso observou-se menor ingestão de cálcio entre os adolescentes obesos, demonstrando a importância do estímulo ao consumo de alimentos fontes deste mineral durante as dietas para redução da massa corporal.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MAURO FISBERG MD, PhD
Mauro Fisberg es médico, egresado de la Escuela Paulista de Medicina, Universidad de Sao Paulo, Brasil, en el año 1976. Realizó la Residencia médica entre los años 1977 y 1978 en la misma Universidad. Recibió el título de Magíster en Nutrición en al año 1981 en la Universidad de las Naciones Unidas, Universidad de Chile. En 1987 recibe el título de PhD de la Universidad Federal de Sao Paulo.
Es Director y Coordinador del sector de Nutrición del Departamento de Adolescentes de la Universidad Federal de Sao Paulo.
Es además el Coordinador del Centro de Investigaciones sobre Calidad de Vida de la Universidad de Sao Marcos.
Es miembro de diversas sociedades científicas de Brasil, entre las que se destaca como Director del Grupo de control de Peso ILSI, Brasil y coordinador del grupo de Obesidad FISPGHAN.
Ha realizado varias publicaciones referidas a la nutrición y la obesidad en la niñez y adolescencia.
Presenta más de 150 artículos en diarios nacionales e internacionales y ha brindado más de 300 conferencias nacionales e internacionales.
fisberg@uol.com.br / nutrociencia@nutrociencia.com.b
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